2 comunicados, 1 dia, 0 nomes: a CBH trocou de presidente em 9 de setembro
Constantino Scampini renunciou de forma irrevogável e Daniel Khury, vice-presidente e diretor de salto, assumiu no mesmo dia. A carta fala em “determinados grupos e pessoas” e não identifica nenhum. Nenhum dos dois comunicados menciona eleição, assembleia ou prazo de mandato — e os estatutos publicados pela CBH não abriram em forma legível para nós.
Redação BrazHorse · 12 de setembro de 2026 · 8 de leitura

A Confederação Brasileira de Hipismo trocou de presidente na quarta-feira, 9 de setembro. Constantino Scampini publicou uma carta de renúncia que ele mesmo qualifica de irrevogável. No mesmo dia, Daniel Cesar Maranhão Khury publicou um comunicado dizendo que assumia o cargo. Os dois documentos estão no índice de comunicados da CBH, os dois com data de 9 de setembro.
Antes de qualquer outra coisa: nós demoramos três dias para contar isto. A nossa última matéria é de 9 de setembro, publicada às 11h20 (UTC), e nela não há uma linha sobre a renúncia — os dois comunicados ainda não estavam no índice naquele horário. Nos dias 10 e 11 de setembro não publicamos nada. O atraso é nosso, não da fonte.
O que a carta diz
A carta é endereçada “aos membros da Assembleia Geral, Conselhos e comunidade do hipismo brasileiro” e tem como assunto “Renúncia ao cargo de Presidente”. Lemos o PDF inteiro, publicado pela própria CBH, e é dele que sai tudo o que vem a seguir.
“Após profunda reflexão e considerando o momento que atravessa a nossa instituição, venho comunicar, de forma irrevogável, minha renúncia ao cargo de Presidente da Confederação Brasileira de Hipismo”, escreve Scampini logo no segundo parágrafo.
O terceiro parágrafo é o que tenta explicar a saída: “nos últimos tempos, temos assistido a um movimento de determinados grupos e pessoas que, movidos por interesses que não considero compatíveis com os melhores interesses da Confederação, vêm promovendo questionamentos sistemáticos, colocando em dúvida o trabalho realizado e, em minha avaliação, contribuindo para desgastar a imagem da instituição”.
“Não deixo esta Presidência por reconhecer como legítimas as acusações ou questionamentos que vêm sendo feitos. Deixo porque entendo que, neste momento, minha saída pode ser o caminho para preservar a instituição.” — Constantino Scampini, carta de renúncia, 9 de setembro de 2026
A carta termina desejando sucesso “a quem vier a conduzir os próximos passos da Confederação”, e com uma frase que vale registrar inteira: “A CBH é maior do que qualquer presidente, qualquer grupo ou qualquer disputa”.
O que a carta não diz
Ela não identifica ninguém. Lemos o documento procurando nomes: o único nome próprio de pessoa na carta é o de quem assina. Os críticos aparecem sempre no coletivo — “determinados grupos e pessoas”, “aqueles que hoje se apresentam como alternativa”, “aqueles que tanto questionaram e criticaram a gestão”. Nenhum nome, nenhuma entidade, nenhum episódio datado.
Ela também não diz o que acontece agora em termos institucionais. Não há menção a assembleia, a eleição, a prazo de mandato ou a artigo de estatuto. O comunicado de posse de Khury, publicado no mesmo dia, também não: é um texto de intenções, não de procedimento.
Quem assumiu
Daniel Cesar Maranhão Khury era vice-presidente e diretor de salto da CBH. Isso não está em nenhum dos dois comunicados. Está em duas publicações independentes que cobriram a troca no dia 10: o Adestramento Brasil e o World of Showjumping, que o descreve como “Vice Presidente e Diretor de Saltos da CBH”. Dois registros independentes que batem entre si.
A própria CBH corrobora por omissão. A página de diretoria do site, atualizada em 10 de setembro às 12h46 (UTC), lista Khury como Presidente — e continua listando o mesmo nome como Diretor de Salto. A linha do Vice-Presidente está lá, sem nome nenhum. A do Diretor Financeiro, também.
No comunicado de posse, Khury agradece “ao Presidente Constantino Scampini pelo trabalho realizado à frente da CBH” e promete “um período de escuta, participação e trabalho conjunto”. A palavra que ele repete é união. A que não aparece uma única vez é eleição.
A sucessão: o que não conseguimos verificar
Queríamos dizer ao leitor o que o estatuto da CBH manda fazer quando o presidente renuncia: se o vice assume automaticamente, por quanto tempo, e se há obrigação de convocar assembleia. Não conseguimos. A página de estatuto da CBH publica seis versões — 2012, 2014, 2015, 2018, 2020 e 2023. Tentamos abrir a de 2023, a de 2020 e a de 2018. As três voltaram sem texto extraível, como imagem digitalizada.
A frase honesta é esta: não localizamos o texto do estatuto em forma legível pelas nossas ferramentas. Não estamos dizendo que a CBH esconde o documento — ele está publicado, com link funcionando. Estamos dizendo que não conseguimos lê-lo, e que por isso não vamos afirmar nada sobre a regra de sucessão, nem para confirmá-la nem para questioná-la.
O caso Yuri Mansur: o que é da fonte e o que é de terceiro
As duas publicações que cobriram a renúncia ligam a saída de Scampini ao caso Yuri Mansur. O Adestramento Brasil escreve que ela ocorreu “em meio à polêmica com relação a não escalação do cavaleiro Yuri Mansur como titular da equipe de salto para o Campeonato Mundial em Aachen”. O World of Showjumping fecha a matéria com dois links para a própria cobertura do episódio.
Esse é um dado declarado por terceiro, e nós não o verificamos na fonte primária. A carta não cita Mansur, não cita Aachen, não cita a equipe de salto. Nem Scampini nem a CBH nos disseram que uma coisa levou à outra. Quem for repercutir, repercuta com essa ressalva.
O que é verificável é a cronologia. Em 18 de agosto a CBH publicou a nota “CBH esclarece definição da equipe brasileira de Salto para o Mundial de Aachen 2026”, que segue sendo a última manifestação oficial dela sobre o assunto. Em 7 de setembro Yuri Mansur venceu o Grande Prêmio 5* de Valkenswaard. Em 8 de setembro a CBH publicou essa vitória na home — e essa continua sendo, hoje, a matéria mais recente do site. Em 9 de setembro o presidente renunciou. São 22 dias entre a nota e a carta. A cronologia é nossa. A causa, ninguém nos deu.
O que este número não diz
“0 nomes” descreve um documento, não um conflito. A carta não identificar ninguém não significa que não haja nada identificável por trás dela. Significa que o documento público não nos dá isso — e que qualquer nome que circule a partir de agora vem de outro lugar que não a fonte oficial.
“1 dia” também pede cuidado. Os dois comunicados têm a mesma data de publicação no site. Isso não prova que a transferência do cargo se deu em 24 horas, nem que houve ou deixou de haver reunião, assinatura ou ato formal nesse intervalo. Prova que a CBH publicou as duas coisas no mesmo dia.
E há o que simplesmente não sabemos: se Scampini permanece com algum cargo na entidade; quando termina o mandato que Khury passa a exercer; se haverá eleição antes disso; quem ocupa agora a vice-presidência e a diretoria financeira; e se o resto da diretoria foi mantido. Nenhum dos dois comunicados responde, e o estatuto não abriu.
Um detalhe de arquivo, sem conclusão nenhuma: o PDF da renúncia está publicado com o nome de arquivo Renuncia_cargo_Presidente_CBH_09092027.pdf. O documento é datado de 09/09/2026 e o comunicado é de 9 de setembro de 2026. Registramos porque leitores vão reparar — é nome de arquivo, não data de documento.
O que vamos perseguir
Três coisas, e vamos prestar contas delas aqui. O estatuto em forma legível, para dizer ao leitor qual é a regra da sucessão. Uma resposta da CBH sobre prazo de mandato e eleição. E a composição da diretoria — porque, no dia em que escrevemos isto, a página oficial da entidade tem duas cadeiras sem nome e um mesmo nome em duas cadeiras.
Fonte: Confederação Brasileira de Hipismo — comunicados “Carta de Renúncia ao cargo de Presidente da CBH” e “Daniel Khury assume presidência da CBH”, ambos de 9 de setembro de 2026, mais o PDF da carta, lido na íntegra; página de diretoria da CBH, atualizada em 10/9/2026; página de estatuto da CBH. O cargo anterior de Daniel Khury vem de duas fontes independentes, Adestramento Brasil e World of Showjumping, ambas de 10/9/2026. A ligação com o caso Yuri Mansur é declarada por essas duas publicações e não foi verificada por nós na fonte primária. Imagem de capa: ilustração BrazHorse, com imagem de fundo gerada por inteligência artificial — arena vazia genérica, que não retrata a CBH, nenhuma pessoa citada nem nenhum fato descrito nesta matéria. Renúncia e posse são dados oficiais; a cronologia é nossa; a causa é declarada por terceiros.
